Um feliz dia do trabalho para você

Hoje é dia do trabalho. Sim, aquele feriado esperado. Uma quarta de maio de 2013, quebrando a semana em duas partes menos ou mais produtivas – isso depende unicamente de você. Vou comemorar meu dia do trabalho descansando de tudo. Fazendo atividades que eu gosto e que geralmente não tenho muito tempo: pintar, desenhar, pensar, ler, estudar, escrever… mas, aqui entre nós, isso faz parte do meu trabalho. É bem aquele trecho da música do Talking Heads que eu amo: “I can´t tell one from another / Did I find you, or you find me?”. Não consigo distinguir o que é uma coisa ou o que é outra e não sei se encontrei meu trabalho ou se ele me encontrou.

Vejo muita gente se perdendo no muro que fica entre o escritório e o pagode. Vejo muitos encontrando consigo no ponto onde não dá pra distinguir onde fica uma coisa e outra.

São essas pessoas que mais admiro: aquelas que se perdem na confusão do que é o lazer indistinto do labor. Confesso que muitas vezes me pego na antítese de pensar que o lazer forçado é o pior dos trabalhos. Ir àquele casamento de pessoas que você mal tem afinidade, para mim é muito menos divertido do que passar horas fazendo uma ilustração experimental. Entretanto queimar um sábado executando um trabalho divertido, com equipe sinérgica e propósitos decentes é algo que talvez nunca me aborreça na vida. Queimei um sábado. Foda-se. Lembre-se que em nenhum momento eu preciso ser demagoga, afinal, eu não tenho um chefe que ficará feliz por ler isso e nem preciso de aprovação hierárquica.

No fim das contas eu também concordo que há muita demagogia em literatura de líderes incansáveis. O Steve Jobs ralou pra caramba mas com certeza deveria adorar coçar o saco nas praias da Califórnia. Lembra das histórias da Pixar que a galera dormia embaixo da mesa? E o Silvio Santos camelô que até hoje chega no escritório com o sol raiando?

Não nego que o ócio e negócio devam coexistir, ambos se equilibram. Um higieniza o outro. Só me irrito com e ênfase que o povo brasileiro coloca no ócio – como se o ócio fosse o único objetivo a se atingir. É preciso sim de tempo para a família, para os amigos, para o dolce far niente. É preciso de tempo para viajar. Não nego férias e acho que 100% das pessoas precisam delas. Eu não nego anos sabáticos – desde que eles não sejam puro ócio.

Conheci um “cliente” que está num ano sábatico. Sim, ele virou cliente no ano sabático dele, ou seja, ele definitivamente não está no ócio. Ele está no negócio, agora, em família.

Conheço dois irmãos (e uns agregados deles) que são caras divertídíssimos, que não perdem a oportunidade de tomar uma cerveja e curtir uma naitche. Porém os dois trabalham se divertindo e tem seus finais de semana tomados por executar ideias dos mais diversos tipos.

Uma das coisas que mais me intriga no meu ex-chefe foi como ele não conseguia parar de inventar coisas relacionadas ao trabalho. A cabeça dele não parava de funcionar, aos sábados, domingos, todos os dias. Virou um dos empreendedores mais sagazes que conheço sem nunca deixar de se dedicar à família.

Tenho colaboradores na minha equipe que me impressionam. E que infelizmente não posso listá-los aqui para não gerar qualquer sensação de protecionismo. É gente sempre pronta para o trabalho e que não vê chuva na frente.

O curioso é que “Negar o ócio”, ou seja, o “neg-ócio” parece ter virado uma grande pauta dos momentos de ócio. Acompanhar a timeline do Facebook aos domingos apresenta uma cultura estranha, uma fotografia depressiva. Um sofrimento maligno com a chegada da segunda-feira, do acordar cedo, dos compromissos…

Napoleão tristão

Toda segunda eu não lamento pelo trabalho. Lamento (só algumas vezes) que eu gostaria que todo mundo que realmente gosta de fazer alguma coisa encontrasse uma oportunidade para fazer o que gosta. Ou que tivesse a chance de criar seu próprio caminho para fazer isso em escala.

Sei que não vivemos num país muito justo. Sei também que o ócio é uma fuga, um escape temporário de sub-empregos, ambientes ásperos e atividades insalubres. Nessa situação, não sei se pensaria da mesma forma. Mas nunca soube “santificar o dia de descanso”, como a bíblia manda.

Por fim, quero desejar um feliz dia do trabalho àqueles que pretendem se aposentar e montar um negócio. Aos que fazem planos aos domingos. Aos que tem projetos paralelos, pessoais, autorais, ideais, surreais. Aos que trabalham com energia nas manhãs de segundas. A todos os “Roger Ebert” que continuam seus trabalhos mesmo depois de sequelas de saúde. Ao Jailson Taxista que dirige por São Paulo com entusiasmo. Aos Nildos, Niltons, Daniéis e parte da minha equipe que não vê neblina. A todas as formigas – às de verdade e às metafóricas desse planeta. Ao Vilfredo Schurmann que com mais de 60 anos irá começar sua terceira volta ao mundo em 2013.

A quem nunca, em nenhum instante, deixa de pensar em projetos…

Chega logo, segunda… chega logo…

3 Comentários

  1. Hoje em dia só se fala no ócio como se na vida só se pretendesse ficar parado sem fazer nada ou pelo lazer infinito.

    Sem dúvida que o descanso é ótimo e necessário, mas existe uma grande diferença entre ócio criativo e coçar o saco, inutilizando o tempo para fazer algo produtivo. Não estou falando de trabalho e sim de não ficar na inércia.



  2. Bruno Marques

    Estou lendo um livro que conta um estudo neurocientífico dentro de um convento de freiras. Percebeu-se que as freiras que estudavam, liam ou que até mesmo concluíram nível superior, tiveram menos enfermidades na velhice, principalmente relativas à mente. Problemas de demência, memória, alzheimer, depressão eram menores em quem manteve o cérebro em atividade por toda a vida.

    Também mostram estudos comparando quem pratica atividades físicas com frequência com quem leva uma vida sedentária. Quem pratica esportes tem um aumento considerável de dopamina e tem um aumento da capacidade de conexões neurais. Com isso aumenta o potencial de aprendizado, a longevitude e o bem estar. Então vejam como ambas as coisas são importantes.

    O trabalho, dentre outras coisas, proporciona aprendizado e relacionamento com pessoas, vitais para a sanidade mental.



  3. Andre Antivilo

    Facebook no fim de Domingo é como um final de cerveja quente no copo, já sem os amigos à mesa, olhando para o último garçom do bar e, no piscar de olhos e na respiração puxada, concluir: “é, vou levantar”. Solidão terrosa, ou seja, ninguém vai te ver até que saia de baixo da terra (inventei agora, tudo bem).

    Dia do trabalho é para lembrar que trabalhamos “errado” e que no dia seguinte, todo o trabalho deve ser refeito, na mente. Mais organização e, profundamente, mais decisões adequadas a cada momento. Dia de jogo com os amigos é dia de jogo, reunião é reunião, almoço é para comer e saborear, por-do-sol em Santos é só por alguns minutos e dá para ficar sem falar no telefone ou conversar..



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