Papo com Estudantes – contribuição de Robson Henriques e Neil French

No dia 28 de abril de 2012 tive a experiência de participar de um dia super especial. Senta que o post é longo, assim como foi o Papo com Estudantes.

A primeira edição aconteceu num sábado de feriado prolongado, às 14 horas. Mais informações sobre os propósitos do evento estão aqui.

No total éramos em 19 estudantes – me incluo nessa e tenho certeza que o Robson Henriques também. Nós dois ficamos encarregados de responder curiosidades e dúvidas de estudantes do nosso mercado – de forma regional e global.

O post sobre perguntas e respostas fica para depois, mas há alguns elementos muito comuns entre todas as perguntas: dúvidas sobre o mercado regional, sobre áreas quentes de oportunidades, iniciativas para se destacar, formação acadêmica, entre outras.

Abaixo o texto do Robson, que gentilmente (como sempre) nos dá a honra de participar aqui do Mochila Binária.

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Porque vocês mereciam alguém muito melhor do que eu.

Há mais de duas décadas, eu era um jovem redator de propaganda.
E como todo jovem, sabia tudo e tinha todas as certezas do mundo.

É disso que somos feitos nessa idade, de sonhos e convicção.
Essas matérias-primas eram tudo que eu tinha quando comecei, em uma pequena agência do interior, com clientes menores ainda.

O cenário não era nada promissor. O mercado árido se tornou ainda mais inóspito ainda com o recém Plano Collor, que confiscou o dinheiro, sonhos, convicções e certezas de todos os brasileiros, independente da idade ou da área de trabalho.

Nunca vi tanta empresa quebrando, tanta gente sem saber o que fazer, tanta agência fechando.

E eu lá, no meio desse caos. Tudo o que eu tinha era uma inexplicável esperança, daquelas que a gente encontra em muitos hospícios, e alguns anuários de propaganda americanos e ingleses, que reuniam os melhores comerciais e anúncios do mundo, criados pelas maiores lendas da nossa profissão.

Me agarrei a esses livros como um sacerdote a sua bíblia. Lia os títulos e textos dos anúncios, repetindo as frases em voz baixa, como uma oração, uma confissão de fé, escritos por todos aqueles profetas: David Ogilvy, Bill Bernbach, Bob Levinson, David Abbott, Tom McEligott, Ed McCabe, Neil French.

Esses redatores foram a minha salvação, me mostraram o caminho, me fizeram acreditar e sair daquela pequena agência para as maiores do país.
Foram 20 anos bipolares nesse ofício: maravilhosos, loucos, surreais, estressantes e inesquecíveis.

Hoje estou bem distante de ser um jovem. Mudei de ares e de área.
Troquei a certeza pela curiosidade.
A convicção pelo entusiasmo.
Os sonhos por projetos compartilhados.
E tenho me divertido bem mais.

No entanto, de vez em quando me chamam para dar uma volta ao passado e falar sobre propaganda. Já fiz isso algumas vezes na Miami Ad School, no Istituto Europeo Di Design, na ESPM, na HSM.

Mas tem um lugar em especial, que tenho o maior carinho quando sou convidado: a Mkt Virtual.
Por vários motivos.
É uma agência jovem, como eu fui.
É de Santos e a três quadras da rua onde cresci.
Tem os olhos voltados para o mundo, como sempre procuro ter.

A Ludmilla me convidou para falar, junto com ela, com estudantes sobre propaganda, em um sábado no meio de um feriado de quatro dias. Confesso que fiquei intrigado. Quem seriam os loucos que iriam nesse evento?

Comecei a me lembrar quando eu era um desses loucos, em Santos, ávido por qualquer informação e ficava feliz quando vinha alguém de São Paulo dar uma palestra na cidade.

Confesso que me vi muito nessa molecada.
Por isso achei que eles mereciam uma referência melhor do que eu.
Resolvi então pedir o auxílio luxuoso de alguém muito especial: um daqueles apóstolos que eu lia na minha adolescência profissional.

O homem que chegou a acumular ao mesmo tempo a direção mundial de criação da JWT, Ogilvy, Y&R e Grey e que, na sua passagem pela Ásia, colocou o continente definitivamente no centro da publicidade mundial.

O homem admirado por David Droga da Droga 5, Bob Scarpelli da DDB, Lee Clow da TBWA, Jeff Goodby da Gooby & Silverstein, Mike Hughes da The Martin, entre outros fãs ilustres.

Um dos 32 apóstolos que fazem parte do seleto grupo The Copy Book, que reúne os maiores redatores de todos os tempos.

Marcello Serpa diz que conheceu alguns criativos que conseguiram escrever um ou dois anúncios memoráveis em suas carreiras, mas que apenas este homem conseguiu escrever uma dúzia de anúncios memoráveis.

Entre eles, o lendário anúncio de jornal que pagava 500 dólares ao leitor que encontrasse nele um proposital erro ortográfico. (veja aqui)

Para economizar o tempo de vocês com Google para conhecer mais desse gênio, coloco aqui o link para o site, aqui para um vídeo do World Press Award e aqui uma entrevista durante o Festival de Cannes.

Senhoras e Senhores, sem mais rodeios, apresento a vocês Mr. Neil French.
Que, gentilmente atendendo a um pedido meu, escreveu um carta especial, que segue abaixo, para todos que estiveram conosco no sábado. Mas serve para todos que pretendem iniciar na profissão.

O estilo dele continua inconfundível. Espero que gostem.
E se apaixonem por uma das suas características mais fascinantes: o respeito por quem está começando.

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My friend Robson asked me to write a few words for you. Presumably as comic relief while he goes for either a pee or a caipirinha.

This is his home town. You’re all Brasilian. So you’re young, fit, charming and good-looking. English is not your first language. And you’re not in advertising.

So far, we have absolutely nothing in common! Let me tell you a story. The reason I have time to do this for Robbo is that I’m flat on my back in bed have cracked a vertebra picking up packing-cases. The last time I was in this position was nearly twenty years ago, when I cracked two ribs attempting something amusing with two very pretty girls in Sao Paulo.

So my first piece of advice is; if you’re going to put yourself in hospital, have fun doing it. Picking-up packing-cases instead of cuties is a fool’s game!

Now…advice.

First, never take advice. The road less-traveled is always the right one. Buddha said “Do not listen to advice from your teachers, your elders, your priests…and especially not from me.” (Yes, that’s a contradiction in itself. Buddha’s a fun guy).

(So at this point, it looks like you may as well go and have a pee, or a caipirinha with Robbo, or pick up some packing-cases, right? If you can’t be bothered to move, here’s some more useless advice…).

My own favourite quote is by an English statesman called Benjamin Disraeli. “Never complain. Never explain.” Live with your mistakes as well as your victories.

Another is from the American President, Theodore Roosevelt. “Far better it is to dare mighty things, to win glorious triumphs even though checkered by failure, than to take rank with those poor spirits who neither enjoy much nor suffer much, because they must live in the grey twilight that knows neither victory nor defeat.” (This is more of the same, without the arrogance that Benny and I enjoy!)

And just in case you do decide to pursue any of the arts… “Perfection is achieved, not when there is nothing more to add, but when there is nothing more that can be taken away.” Antoine de Saint Exupery said that.

And the writer of the best-ever detective novels, Raymond Chandler, said “The moment a man begins to talk about technique, that’s proof that he has run out of ideas.” Both useful guides if you are any kind of an artist or writer. “Simplicity is the ultimate sophistication.” Thus said Leonardo da Vinci…and he knew a thing or two. Then, when you become a boss, be it in business or the armed forces, “Give the credit when you’re successful. Take the blame when you’re not.” You must be trusted by the people who work with you, or you and they will end up as failures.

Make plans, by all means, but you don’t have to stick with ‘em. Go with the flow. “How do you make God laugh? Tell him your plans.”

“Go down fighting, and ideally, in flames.” Never, ever, give in. And if defeat is inevitable, make it spectacular! I’m living proof of this one!

And since we’re all hanging onto life by the merest thread, can I offer this final thought…“If you’re on thin ice, you might as well dance.” I LOVE that one!

Now, if a few of you have returned from the toilet or the bar, this is the important bit. I’ve been around for a long time. I’ve been everywhere and done everything. Please feel free to write down everything beneath this headline.

What have I learned?

Have fun.

Neil French

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Só digo três letras: WOW!

9 Comentários

  1. O que eu aprendi?
    É de fato um ótimo título.
    E talvez falar a respeito dele, seja uma boa forma de reconhecimento pela brilhante iniciativa de vocês.
    Começo me perguntando sobre o que levaria o Robson e a Ludmilla a se prontificarem a responder dezenas de perguntas de uma cambada de, segundo o Robson, loucos que resolveram aceitar esse papo no meio de um feriado de quatro dias?
    O que faria com que alguém do outro lado mundo, mais do que consagrado no mercado publicitário mundial, que não tem o nosso idioma como língua materna e ainda com as costelas quebradas, parasse para escrever para nós, molecada louca e talvez até “aventureira”? ( já não sou mais tão jovem quanto as pessoas pra quem ele imaginou estar escrevendo, mais ainda me considero uma “moleca”)

    Conclui que sim, ou melhor, APRENDI com vocês que sim: somos todos loucos, inclusive vocês, Ludmilla, Robson e Neil. Somos loucos pelo que fazemos e pelo que aprendemos fazendo.

    E foi só por isso que o Papo com Estudantes aconteceu e foi tão bom e chegou “ao outro lado do mundo”. Porque existem loucos como vocês que mais do que amar o que fazem, também se apaixonam pelas pessoas pra quem fazem, e assim, conseguem com que estranhos, desconhecidos, se sintam como velhos amigos de vocês. Aprendi que é assim, sendo loucos como vocês, que se cresce, que se conquista a admiração das pessoas e que são elas que nos impulsionam pra cima.

    Aprendi que quando eu crescer, eu quero ser igual a vocês.
    Obrigada por tudo!

    Bjkas:)
    Silvia Sêco



  2. Muito bom! =)



  3. Renato Galvão

    GENIAL!



  4. Raphael Campos

    Muito bom… Mais uma vez agradeço muito pela oportunidade.

    O que eu aprendi? Esse texto é um sopro pra vida. Um empurrão. Na verdade não é fácil… rss… O viver intensamente. As vezes a vida tem suas fases e suas maneiras reais de se impor, mas concordo plenamente com o texto. É isso que eu faço. Seja no meu trabalho, com minha família, surfando, ou escrevendo esse texto aqui. Procuro sempre me preocupar apenas com o que estou sentindo e me entregar à vida. Sou formado em artes cênicas pelo Senac ai de Santos, e uma das coisas que aprendi durantes os exercícios cênicos é que estamos o tempo todo exercitando algo cênico, seja ele dramático ou cômico, só depende de quem escreve o roteiro. Sensacional: “How do you make God laugh? Tell him your plans.” Obrigado



  5. Pingback: 1º Papo com Estudantes na Agência Mkt Virtual « Rapha VEM

  6. Nossa esse texto me mostrou o poder da comunicação e principalmente da internet! Uma idéia regional chegou tão longe com uma pessoa tão ilustre e com uma mensagem bem marcante.

    Divirta-se pra mim foi tudo!

    Talvez com uma ponta de loucura queimamos abraçar o mundo. E porquê não?

    Agradeço muito pelo texto e pelo ótimo network que foi gerado pelas portas da MKT Virtual.

    Muito obrigado! Essas são coisas que me movem e muito!



  7. Renato Cunha

    Belo texto!!



  8. Gabriel Caires

    Espetacular o texto e a iniciativa!



  9. Pingback: TIP – TIP recebe estudantes da região

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