O início do caminho como empreendedora: o que aprendi com 12 anos

No último dia 02 de janeiro de 2013, minha empresa (para quem não conhece, prazer, a Mkt Virtual) completou 12 anos. Não vou fugir do clichê: parece que foi ontem. Ao mesmo tempo olho as fotos e penso que muita coisa aconteceu e que passei por muitas lombadas. As mulheres vão entender bem: com doze anos a gente começa a ter peitos, algumas a menstruar, e as mais ousadas da minha geração começavam a sensualizar. A gente começa a criar a consciência do mundo adulto. Uma mocinha, no linguajar das tias idosas.

Fico tentando lembrar da minha vida aos 12 anos, quando eu tinha recém-retornado à minha cidade natal (Santos) e me deparava com uma escola nova e uma realidade bastante diferente. Não sofri muito para me adaptar, entretanto também não pude ter uma transição suave. Saí de Salvador brincando de bonecas e cheguei em Santos conhecendo amigas que já falavam em sair pegando meninos. Choque de realidades que catalisou meu entendimento sobre como as coisas funcionavam na vida “adulta” (a lei do mais bonito da escola, segregação social, sinergia, valores familiares, etc).

Ludmilla e Carlitos

Olhando ainda para esse mesmo ano, resgatei outro fato. Eu já mexia com PCs de uma forma bastante pueril, e em 1994 isso era uma raridade. Mas na minha classe havia um outro garoto que também fazia o mesmo e tinha um Macintosh (!!!). A gente ficou amigo rápido e (ridiculamente) decidimos montar uma “empresa”.

Claro que nada foi para a frente. E aí eu aprendi algo bastante relevante: a ter paciência e esperar a hora certa (claro que eu só soube disso um bom tempo depois). Enquanto nada acontecia na minha vida profissional e eu tinha que ir para a escola aprender o que eram genes recessivos e dominantes (outro aprendizado que foi bem além das ervilhas), eu me divertia com o Carlitos (foto).

Passaram-se dois anos e a Internet chegou na minha casa de mansinho, no dia 28 de junho de 1996. Depois de poucas semanas ela já provocava muita discórdia familiar. Só esse assunto dava umas boas laudas, mas vou poupá-los da inconformidade da minha mãe ao me ver em chats com pessoas pouco mais velhas do que eu e ao notar que eu ficava acordada até as 3h ou 4h da manhã. Aqui eu aprendi os princípios de técnicas de negociação, ou seja, boletins bons (bom para minha mãe é acima de 8,0) me davam argumentos e envernizavam os chiliques maternos.

Com 14 anos eu continuava passando um bom tempo nos programas de chats, onde os amigos dali eram mais interessantes do que as pessoas da escola. Público-alvo e interesses comuns, digamos que isso é bem importante na minha rotina atual.

Pouco antes de completar 15 anos comecei a namorar o Mauricio, que conheci pelo mIRC e fundou comigo (e com nosso ex-sócio Flávio Raimundo) a Mkt Virtual em 2001. Além da gente ter se conhecido no mesmo “meio” em que trabalhamos, nós dois precisamos ignorar alguns conselhos de tia velha de novo. “Onde se ganha o pão, não se come a carne” foi a frase que mais ouvi em 2001. Se eu fosse um pouquinho mais esperta aquela época, deveria ter respondido mais de 100 vezes o seguinte: “É que eu adoro hambúrguer”. Eu era inocente demais para isso.

Quando eu tinha 19 anos, a Mkt Virtual começou. E aí foi para valer, na marra, sem chance de cometer erros estrondosos. Eu e o Mauricio, seis meses depois um estagiário, oito meses depois mais um. E assim a empresa foi se transformando, crescendo, ganhando corpo, mudando e florescendo como um jardim adubado (bem) lentamente.

Os primeiros cinco anos foram lentos, mas essenciais para cometermos os erros quando os riscos ainda eram controláveis. Quando menos gente dependia da gente. Quando os clientes ainda contratavam “os garotos do site”, confundindo a gente como “os meninos do e-mail”, ou “o pessoal da informática”. Se dependesse do job description que a gente recebia ou da criatividade que algumas pessoas usavam para desenhar nossas atividades, a gente era uma espécie de “Bill Gates hiperdotado viciado em anfetaminas”. Sério. Nessa época a gente descobriu que precisávamos colocar limites, só não sabíamos bem como.

Mas ao mesmo tempo em que os limites eram importantes, a gente aprendia que quanto mais trabalhava no que a gente entregava, mais a gente aprendia. Como não havia nenhum tipo de acesso a conhecimentos prévios (e a Internet ainda não era tão populosa e não havia “modelos mentais” próximos ao nosso negócio), era na raça mesmo.

A historinha da cigarra e da formiga ecoava na minha cabeça (e pelo pequeno escritório). A gente trabalhava muito enquanto muitos amigos achavam a gente bastante freak de entrar de manhã no escritório, sair de madrugada, trabalhar sábados, domingos e feriados. Esse estigma de xiitas do trabalho a gente carrega até hoje para alguns amigos que conviviam com a gente no comecinho da empresa. Alguns simplesmente não entendem/entendiam que era um catalisador, e não uma decisão ou hobby. Aqui fica algo bem importante: ignore os estigmas e as piadinhas.

Para quem não assistiu a esse clássico quando era criança, tá aqui:

Novamente, quando a família, amigos e conhecidos começam a ver o pouco retorno dos primeiros anos de empreendedorismo começam a haver as dúvidas e questionamentos. Não seus, mas dos outros – é meio que a história da menina que não arruma namorado: a única métrica de sucesso para uma senhora que nasceu antes de 1930 é que a mulher arrume um marido. E sucesso no empreendedorismo, para boa parte da população, significa casar com o dinheiro.

Avó e Neta

Claro que isso é muito mais comum no começo e muitas minhocas começam a ser plantadas na sua cabeça:

“Funcionário é funcionário e ponto”.

“Não confie em funcionário”.

“Ser empreendedor no Brasil não vale a pena”.

“Não ensine o que você sabe”.

“Cuidado ao abrir uma empresa porque fechar é pior”.

E a minha ~favorita~ ironia:

“Quem se dá bem é quem faz concurso público”.

A fórmula é bem simples: se você é sedentário, não adianta pedir conselhos (ou ouvir) amigos que são pouco entusiasmados com atividades físicas para começar a se exercitar. Se você quer pular de paraquedas não adianta pedir a opinião de quem tem medo de altura. Se você quer fazer uma viagem, não adianta pedir dicas de turismo para aquele parente que tem pânico de avião. Se você tem um negócio, não adianta pedir ajuda para quem não acredita/enxerga esse tipo de entusiasmo. Peça ajuda para quem faz o que você gostaria de fazer ou para quem possa empurrar você para a realidade que você projeta.

Mapeie mentores absurdos: dos seus amigos àqueles que você nunca terá nenhum contato. Procurar por boas histórias e por boas conversas sempre ajudam muito. “Esbarrar” com essas pessoas é algo que demanda um pouco de sorte, mas também depende muito da recepção que temos pra esse tipo de tempo.

Não dá para forçar a barra e é preciso ter sensibilidade para abrir a oportunidade na hora certa – isso eu aprendi com um colaborador que trabalha comigo, o Fabio. Trabalhamos juntos há mais de 5 anos e na ocasião da entrevista eu perguntei:

– Mas por que você demorou tanto para mandar o seu currículo para cá se você já acompanha a empresa há tanto tempo?
– Por que eu sabia que eu teria apenas uma chance certa.

Foi quase um tapa na cara para uma pessoa, digamos, impulsiva. Me senti de novo a garotinha de 12 anos de idade aprendendo sobre “a hora certa”.

Tenho a clara certeza e aprendizado que os colaboradores da empresa que fundei e os clientes que compram os serviços da Mkt Virtual (além de todos os amigos que conhecemos ao longo desses 12 anos) foram os grandes responsáveis pelo amadurecimento da empresa. Isso é algo que poucos livros e universidades ensinam: você pode começar algo, mas você nunca será responsável pela maturidade que esse “algo” irá atingir.

A gente começa um negócio achando que “o mundo nos deve muito”, mas no fim descobre que a “gente deve muito a esse mundo”. Valeu por essa, Dona Cigarra.

O título desse post não é gratuito. O início do caminho (não falo do começo, mas reafirmo que estou no começo) como empreendedora: o que aprendi com 12 anos (aprendi com 12 anos coisas essenciais para aplicar em 12 anos de empresa).

11 Comentários

  1. Gabriel Caires

    Agora falta o post das 12 principais coisas que aprendeu nos 12 anos de empresa =)



  2. Muito legal o post, Ludmila! Divertido e informativo ao mesmo tempo!
    Parabens pela tua historia, super inspiradora!
    =D



  3. Excelente.



  4. Empreendedorismo envolve arte (para enxergar alem do obvio), ousadia (para assumir riscos e incerteza, na grande maioria das vezes arriscando o pouco dinheiro que temos), muito ouvido (por isso temos 2 ouvidos e uma boca), uma rede de amigos, contatos e profissionais especial (porque ninguem faz nada sozinho… NINGUEM) e um belo de um “gut feeling”.
    Pelo pouco tempo que conheco a Lud e a Mkt, ambos como cliente e agora amigo (de muitas aventuras que aparecerao), arrisco a dizer que essa mulher é um exemplo e tem muito a ensinar tanto pra quem ja ta na luta, como pra quem ta entrando no mercado.
    Show!! Feliz 2013 e ansioso pelos proximos 11 posts!



  5. Muito bacana. Parabéns!



  6. Ellen Ierardi

    Linda historia! Parabéns Lud e Mauricio!!! Desejo muito mais conquistas!!!
    Vc merecem todo esse sucesso!!!



  7. Ivanilde

    Excelente, menina! Parabéns!



  8. Oi Lud!! Fico muito feliz em poder ver a Mkt com 12 anos de vida, e você por trás dessa importante empresa! E pensar que te conheci lá atrás, no colégio, amiga da Gabi, e isso é o que mais acho bacana! Hoje, depois de vários anos, você continua sendo uma pessoa e profissional referente para mim, pelos valores, e por mostrar sempre que vale a pena empreender um caminho com dedicação e seriedade, assim os frutos são colhidos.
    Parabéns Lud e Mkt Virtual!!



  9. Pequeno Viking

    Viva o mIRC! Ótimo post, pra variar. Muito motivador!



  10. Muito bom!!!! Adorei o post e conhecer mais da sua história. Grande abraço.



  11. Achei muito interessante seu Post e sua trajetória de vida!

    Vejo que você batalhou muito até chegar onde está.

    Você merece todo o sucesso que possui.

    Abração!



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