Flash contra HTML5 ou Apple contra Adobe?

Existe muita confusão de informação sobre essas supostas “guerras” que acontecem hoje no mundo da web. De fato, Apple e Adobe não se relacionam bem – e isso significa que seus interesses comerciais não coincidem.

Apple vs. Adobe: um pouco de história

Essa guerra começou em 2007, no lançamento do iPhone. A Apple confirmou que Java e principalmente Flash não seriam suportados pelo sistema operacional do dispositivo, o iOS.

O iPhone foi um grande sucesso e, um ano depois, ganhou sua versão 3G. Nessa mesma época, a Adobe anunciou que a próxima versão do Flash, através da sua plataforma Adobe Air, seria capaz de produzir conteúdo feito em Flash para o iPhone. A ideia era a seguinte: os desenvolvedores codificariam em um desktop e, quando fossem publicar um projeto, apenas selecionariam uma opção para exportar para o telefone da maçã – e assim, “magicamente”, o seu conteúdo seria visto em um iPhone.

Foi um bom golpe na postura da Apple de não suportar o Flash, mas a empresa de Jobs contra-atacou atualizando sua licença de produtos e proibindo justamente o recurso que a Adobe usara para fazer o conteúdo em Flash funcionar no iPhone. Esse “remédio” teve um efeito colateral: outras empresas, como a Unity3D, usavam esse mesmo recurso e foram jogadas para escanteio nessa brincadeira. Pouco tempo depois, a Adobe anunciou que não continuaria o desenvolvimento da ferramenta que integrava o Flash com o iPhone.

Mas por que tudo isso, amigo?

Apenas muito interesse de mercado. Vamos pensar juntos: o iPhone fez sucesso e se tornou um mercado muito interessante para o desenvolvimento de aplicativos. Como o iOS é uma versão bem reduzida do Mac OS, o sistema operacional dos Macs, logo só é possível desenvolver para o iPhone através de um computador da Apple.

Se quem quer desenvolver para iPhone precisa obter outro produto da empresa, temos aí praticamente uma venda casada. Ao permitir que o Flash funcionasse em sua plataforma, a Apple abriria uma brecha e talvez não fosse mais necessário comprar um Mac para desenvolver para o iPhone. Com o Flash, seria possível também que aplicativos e principalmente games funcionassem direto no browser, sem passar antes pelo crivo da App Store e, principalmente, sem precisar pagar qualquer porcentagem sobre as vendas dos aplicativos – outra grande fonte de renda da Apple.

A mudança de estratégia da Apple

Alguns meses depois, os jogos feitos em Unity 3D começavam a se destacar no mercado e a Apple percebeu que isto seria muito importante para a popularização do iPhone. Assim, a empresa voltou atrás na decisão de não desenvolver mais o suporte do Adobe Air e desistiu de proibir o uso do recurso que permitia ao Flash e outras plataformas exportar seu conteúdo para o iPhone. Porém, como o desenvolvimento de melhorias havia sido interrompido, o Air passou a sofrer com outro problema: a sua baixa performance no iOS.

Para manter o controle total sob sua plataforma, a Apple passou a ajudar na popularização da nova especificação do HTML, o HTML5, alegando que a tecnologia não é proprietária e por isso se tornaria padrão. Porém, por mais evoluído que o HTML5 se torne, ele sempre vai depender do browser que a Apple coloca em seus iPhones e iPads. Se a empresa quiser, ela pode vetar o acesso a algum recurso – como o acesso à câmera, por exemplo. Além disso, aplicativos desenvolvidos em HTML5 sempre têm performance inferior aos aplicativos nativos, fato que incentiva os desenvolvedores a dar preferência aos últimos no caso de projetos mais robustos – e os empurrando novamente à aquisição de outros produtos Apple.

O presente e o futuro do HTML5

Hoje, de fato, o HTML5 cresceu muito – ainda mais com a onda dos tablets. Olhando para esse cenário, a Adobe nitidamente está mudando aos poucos o foco do Flash: se antes ele era “perfeito” para se colocar todo e qualquer tipo de conteúdo – uma percepção errada, aliás, pois ele realmente nunca foi muito bom para projetos onde o conteúdo e não a experiência eram o foco –, hoje ele aos poucos está se transformando numa tecnologia cada vez melhor para projetos de interação.

Flash Player 11, codinome Molehill

De olho no crescimento do mercado de games, foi demonstrado um beta da nova versão do Flash Player, de codinome Molehill. A principal característica apresentada neste beta foi o Stage3D, que permite ao Flash Player ter acesso direto à placa de vídeo do computador. Isso vai permitir ao Flash exibir gráficos equivalentes aos de jogos feitos para consoles e computador.

Assista a seguir alguns vídeos do Molehill:



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Adobe junto com o HTML5?

Ao invés de ficar batendo de frente com a onda do HTML5, a Adobe percebeu que ainda não existe nenhum bom editor que use o poder de animação que o HTML5 + CSS3 + JavaScript + Canvas tem. Assim, ela lançou ontem o Adobe Edge, uma ferramenta voltada para facilitar o desenvolvimento de animações feitas sem a necessidade do Flash – e que, de quebra, funciona no iPhone e iPad.

É aquela velha e boa história: “se não pode vencê-los, junte-se a eles” – e, se possível, domine o mercado deles. Para que ficar em guerra contra algo que simplesmente não possui um concorrente real, quando se pode simplesmente assumir a liderança desse mercado? E vamos combinar: se hoje existe uma empresa com know-how para criar um bom editor de animação, ela é sem dúvida a Adobe.

Assista abaixo um vídeo do Adobe Edge:

Hoje, alguns tablets com Android aceitam o Flash nativamente – tanto no browser quanto como aplicação nativa. Porém, não podemos esquecer que o iPad ou qualquer outro concorrente da mesma linha tem a performance de um computador de uns 5 anos atrás. Definitivamente, os sites “full flash” de hoje não foram feitos para serem acessados em dispositivos de tão baixa performance.

Agora, quando o conteúdo é feito pensando nesses dispositivos, sem dúvida é possível conseguir uma boa experiência para o usuário – e é nisso que a Adobe está interessada.

17 Comentários

  1. Alessandro

    Parabéns pelo blog e conteúdo desse post. Não conhecia esse blog e achei sensacional. Assinei o feed.

    Abs!



  2. Mauro

    HTML5 sozinho não substitui o Flash. Precisa ter a tag canvas alí com WebGL, e a boa vontade de todas as empresas de tecnologia envolvidas com browsers, sistemas operacionais, gpus, etc. pra que essa parada rode direito em todas as plataformas. Se não, tome plugin!

    E o Silverlight-flash-killer? hehe



    • Gabriel Caires

      Boa noite maurão!!

      Sim sem dúvida, enquanto cada uma fizer as coisas da sua forma não vai dar muito certo e para piorar a especificação do HTML5 só ficará pronta em 3 anos e meio. Até la muito vai ser cada um do seu jeito.



  3. Dá-lhe, Mad, ótimo post! =D



  4. Gostei bastante do post!



    • Gabriel Caires

      Obrigado, sempre nos acompanhe que o mochila está cheio de posts bacanas! =D



  5. É uma briga de gigantes como foi entre Netscape e Internet Explorer nos primórdios da web. Normalmente essas brigas trazem grandes avanços para a web, assim como essa citada, que originou os projetos de Mozilla e Opera, o HTML5 difundiu ainda mais a discussão sobre performance, SEO, padrões de desenvolvimento.
    Acho que as tecnologias são complementares. É importante observar que essa briga levou o foco da discussão sobre HTML5 para outras vertentes, diferentes da ideia inicial onde grandes empresas se reuniram para melhorar a experiência e a qualidade semântica das páginas web.

    A principal inovação do HTML5 é a estrutura semântica para uma próxima geração da internet, onde as pesquisas nos buscadores serão entendidas por seus significados e não mais por uma concatenação de palavras-chave.

    Muitos recursos ainda não podem ser utilizados por conta dos browsers não acompanharem juntos essa evolução e também pelo tempo que leva para estes browsers chegarem a usuários mais leigos.

    Quem souber utilizar as duas tecnologias com harmonia, conseguindo fazer o conteúdo chegar ao usuário de forma fácil e acessível, só tem a ganhar com essa briga de gigantes.



  6. Mauricio Matias

    Mandou bem, todos podem conviver com o uso certo na hora certa.



  7. Milton de Oliveira Neto

    Excelente post!



  8. Gabriel Caires

    Mais um exemplo da própria adobe para promover o HTML5 http://beta.theexpressiveweb.com/



  9. Thiago Rodrigues - Cafu

    Gabriel, que beleza de post rapaz. Parabéns!
    Não sei se você vai lembrar, mas desde os tempos do Senai eu já era fissurado em Flash. Pra mim era a melhor ferramenta, até mesmo para o que ele não foi projetado. rss
    Com a evolução do HTML e CSS acabei me afastando um pouco do Flash, mas nunca o abandonei (e nem pretendo).
    A respeito do post, a solução encontrada pela Adobe neste caso foi perfeita!
    É a resposta que se espera de uma grande empresa.
    Dia 13 nos vemos no inacreditável reencontro dos ex-alunos da turma de 2004!

    Abraço.



    • Gabriel Caires

      Sim, dia 13 estaremos la! Legal ver que está trabalhando com Web, dia 13 conversamos melhor!



  10. Pingback: Zeh Fernando, Flash e Firstborn

  11. Pingback: Flash X HTML e a opinião do Zeh Fernando

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  13. Mak

    Html5 precisa comer muito arroz com feijão para competir com o flash!



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