E se o seu “eu digital” deixasse de existir?

Somos a primeira leva digital de humanos.

Até então, ninguém tinha conseguido registrar nossa existência de forma tão fiel à nossa própria percepção, de forma tão contínua e tão contundente. Pela primeira vez na breve história de nossa espécie podemos ver o que fazemos, seja isso bom ou ruim.

De gatos tocando teclados a americanos matando pessoas usando um helicóptero, como se estivessem em um jogo de computador. Tudo aí na biblioteca.

Podemos acompanhar o que nossos amigos fazem pelas redes sociais, podemos ver suas vidas construídas num simulacro digital que todos tentam moldar da forma mais adequada, ou desejada possível.

A timeline do Facebook promete registrar cada etapa de sua vida, do seu nascimento aos eventos que você e ele julgarem importantes.

E o mesmo Facebook está construindo um data center no Ártico, ou seja, armazenar tudo isso não é fácil, e é uma biblioteca importante que pode ter sua tomada simplesmente puxada. Depender de uma só empresa para registrar nossos momentos, especiais ou não, é uma atitude perigosa: ficamos reféns de um negócio que não vai dar certo para sempre – até agora, nenhum deu.

Ainda que seja muito pouco provável que o Facebook simplesmente acabe a curto prazo, a impossibilidade de um backup de todo esse conteúdo é um fator que nos deixa diante de uma fragilidade preocupante. Retornando à analogia da tomada, quando o Facebook ou qualquer outro serviço que você usa para registrar sua vida simplesmente acabar, seus álbuns de fotografia guardados na gaveta permanecerão lá, os verdadeiros wireless. Pena que só vai ter uma meia dúzia de fotos da sua infância – e isso se você for um de nós, da velha escola.

O custo em duplicar nosso conteúdo é impensável quando nos deparamos com o fato de que, a cada dois dias, produzimos mais informação do que toda a humanidade produziu do seu início até 2003.

Como filtrar o que é relevante e o que é simplesmente pedofilia? Como lidar com o fato de que o consumo de recursos naturais para sustentar nossos servidores é assustadoramente irresponsável?

Os questionamentos são muitos, mas a certeza é uma só: tenha muito cuidado com a forma de registro que você escolhe para sua vida. Do mIRC ao Orkut, você criou personas às quais se dedicou, e que depois deixou para trás.

Essa persona digital que você veste pode simplesmente deixar de existir. Fique atento.

2 Comentários

  1. muuuuito bom!



  2. Carlos Henrique

    Há quem vive este simulacro, e está dentro desta analogia, porém há quem está na rede apenas para usufruir de cada ferramenta, sem ficar dependente do conteúdo produzido.
    Pois independente das fotos ou vídeos que eu posto na internet, eu tenho minha própria biblioteca em meu computador e um backup mensal. A internet ta aí com toda a sua imensidão, cabe a nós saber extrair o que há de melhor, pois como a vida, se não soubermos fazer as escolhas certas as consequências virão da mesma maneira.



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