Aprendizado com o taxista (mais um)

Sério, tô chocada com o que eu acabei de viver e de perceber. Acabo de chegar de São Paulo (para quem não sabe, moro em Santos e trabalho alguns dias em São Paulo). Eu mesclo o transporte público (ônibus, metrô) com táxi para me locomover por aí, além das minhas próprias pernas – simplesmente eu me recuso a dirigir.

Com isso vivo uma rotina sem muito glamour – mas com o aprendizado da vida real. Vejo muita coisa, observo muito. Tento adivinhar a história de cada pessoa que chama minha atenção nesses ambientes. Não é poesia, é o lado prático, é estudo de caso. Não, não sou louca. Não puxo papo com ninguém, apenas observo as fotografias vivas.

Eu sei, já estou fugindo do assunto. Eu acabei de descer de um táxi e sair de uma experiência onde aprendi algumas coisas.

Andando, fui observando para ver se havia alguém no carro pois não dava para ver. Cheguei mais perto, e a janela abriu.

- Boa noite (eu disse)
– Vai para onde?

(estranhei essa pergunta antes de eu entrar no carro, me senti levemente constrangida).

- Vou para o Canal 3
– Canal 3, onde?

(porra, como se isso mudasse alguma coisa, e como se o Canal 3 fosse tão grande assim – e falei o número).

- Mas isso fica onde?

(eu já estava perdendo a paciência, claro. Que tipo de taxista é esse?)

- O que isso muda? – perguntei
– É que eu não vou para qualquer lugar.
– Ok, mas eu estou indo para o Canal 3. Você vai para lá ou falo com o próximo táxi?
– Vai, entra.

(eu já estava achando a situação bizarra e super estranha)

- Vai para que altura? – ele perguntou

(eu expliquei, mas fiquei ainda mais curiosa)

- O senhor pergunta o local antes do passageiro entrar todas as vezes?
– Sim, porque eu não vou para todos os lugares.
– Tipo? Que lugares?
– Eu não vou para todos… tem lugar que eu não vou.

(!!!)

- Mas quais lugares e porque? – eu perguntei – Assalto?
– Eu não subo morro por exemplo. E tem lugar que eu não vou não.

(silêncio constrangedor)

NOTA: logo pensei – que espécie de prestador de serviço que se presta a fazer uma única coisa (levar as pessoas de um lugar para o outro – dentro de uma cidade pequena como Santos) e ainda fica com esse tipo de exigência? É muito estúpido agir assim – no esquema que vemos em grandes corporações “isso não é minha tarefa, isso eu não faço, isso dá muito trabalho”. Quanto progresso.

- Ok… mas fica tranquilo que o Canal 3 é seguro – brinquei.
– É, mas hoje não dá para confiar em ninguém, nem em mulher…

(silêncio constrangedor II)

E ele continuou:

- …esse país nunca foi, não é, e nunca será sério – completou.
– Esse país? (a eterna mania das pessoas de culpar a máquina, e não as pessoas)
– Sim. Morei na Europa muitos anos. Tenho casa lá, meus pais são Europeus.
– E porque voltou? (afinal ele nunca deveria ter saído de lá)
– Longa história. Perdi a coisa mais importante da minha vida.

(ok, aí já comecei a me sensibilizar. Ele contou que perdeu a mulher, ficou viúvo, a enterrou no dia do aniversário dele aqui em Santos. História triste)

- Mas a vida é assim mesmo, a gente passa por essas supresas desagradáveis e precisa seguir em frente – falei, numa tentativa inútil de desamargar o cara.
– Voltei para enterrar minha mulher. Mas isso aqui é um lixo, essa que é a verdade.
– E por que você não volta? – perguntei
– Volto a hora que eu quiser. Tenho dupla nacionalidade.

(o cara era muito grosseiro, e eu comecei a supor coisas)

- Você conhece a Itália? – ele perguntou.
– Sim, Veneza, Florença, Roma… passei um tempo lá – respondi.

(senti que ele estava esperando que a resposta fosse não, para ele poder me contar como a Itália é melhor que o Brasil. Aproveitei para espetar, claro, afinal o mood dele já tava mais pra isso do que para um papo simpático)

- Mas a Itália é o Brasil da Europa né? Digamos que o povo lá não é um exemplo de educação com turistas, ao contrário dos brasileiros que são bem receptivos. – afirmei.
– É um povo parecido. Mas não se compara – ele respondeu, sem saber o que falar.
– Eu não achei os italianos muito educados, aliás, achei muitos bem grosseiros – falei.
– É, mas isso aqui continua sendo um lixo. Conheço 46 países e tenho família nos EUA e na Itália.

(eu ainda não havia entendido onde ele queria chegar. Será que ele queria que eu falasse “nossa, vc é mais foda que o vitinhosoufoda?”. Será que ele queria me contar das euro-aventuras dele?)

- E o que você fazia lá? – perguntei.
– A mesma coisa que eu fazia aqui – ele respondeu.
– E era melhor? – perguntei, curiosa.
– Era. O povo é diferente – retrucou.

O assunto acabou e chegamos no meu destino. A corrida deu R$ 16,60. Tinha TRÊS notas na carteira, uma de R$10, outra de R$ 20 e outra de R$ 50. Saquei a de R$ 20 e dei para ele. E o cara fechou o papo super bad vibe dele com uma cerejinha, que me faz publicar essa história (até então eu estava vivendo o dilema de escrever ou não sobre isso).

- Não – ele disse
– Não o que? – perguntei
– Não aceito essa nota, não tenho troco. – afirmou
– Mas eu estou te dando uma nota de R$ 20.
– Sim, e eu não tenho troco.
– Mas eu só tenho essas notas. O Sr. não avisa quando não tem troco?

(silêncio constrangedor III)

- Enfim, o que faremos? – Perguntei.
– Não sei. – Ele respondendo, como se o interessado em receber não fosse ele, e como se eu tivesse que resolver o problema sozinha.
– O Sr. tem máquina de cartão?
– Não.
– Então o Sr. vai esperar eu trocar os R$ 20 na padaria.
– Você que sabe.

NOTA 2: Puta que pariu, esse cara existe? Terceiriza a responsabilidade de tudo! Pergunta o irrelevante e não fala que é relevante. E como um cara que conhece 46 países, afirma que tem dupla-cidadania e residência na costa italiana não tem 3 putos no bolso para dar de troco para um cliente? Será que ele acha que todos os clientes são médiuns para saber quanto vai custar a corrida e sair com o dinheiro trocado de casa? Eu quase respondi que aceitava o troco em Euros.

Saí do táxi puta da vida, troquei o dinheiro e me dei ao direito de não dizer “obrigada”, e sim apenas “boa noite” visto que eu não teria motivos para agradecer pela péssima experiência que o taxista amargo me proporcionou.

Nesse instante lembrei do Jailson Taxista (se você não conhece o Jailson, recomendo que leia todo o post). Pensei: como duas experiências com o mesmo serviço podem ser tão diferentes? Como o Jailson, além de todas as inovações físicas em seu carro, consegue ser um cara fantástico de se conversar? E como esse taxista amargo consegue impregnar seu instrumento de trabalho com a falta de fé e com a falta de tato para se relacionar com clientes?

Não adianta se deslumbrar com um país (como ele faz), quando o problema está nas pessoas. Transferi-lo do Brasil para a Itália só vai mudar o problema (ele) de lugar. Em compensação, Jailson está aqui, no Brasil, proporcionando a melhor experiência para qualquer cidadão do mundo.

Não adianta mudar o amargo de lugar. E definitivamente, se o Brasil tem que melhorar, não é gritando aos 4 cantos que ele é um lixo. Para melhorar, basta ser o Jailson. E sinceramente, tenho fé de encontrarei mais “Jailsons” do que essa figura bizarra, amarga e sem troco que cruzou meu caminho hoje.

O mais impressionante: vejam que dia é hoje – 28 de junho de 2012. Há exatamente UM ano, nem um dia a mais nem um dia a menos, peguei o táxi do Jailson. Na mesma DATA, e na MESMA HORA. Exatos 365 dias separam uma experiência fantástica de uma péssima.

Por favor, alguém me explica a lição que o universo quer me dar?

P.S.: Isso não é um post-ficção. Acabou de acontecer, foi real. Anotei inclusive trechos da conversa no iPhone para lembrar de detalhes e contar fielmente.

14 Comentários

  1. Mauricio Matias

    Acho que eu nem teria entrado no carro.



  2. Nina

    Chocada em como pode existir uma pessoa tão mal-humorada e de mal com a vida assim. Triste ele ter que trabalhar com público. Triste ele ter que conviver com outras pessoas. Por que ele não volta para a Itália? E esse mau humor todo foi justo no dia em que a Itália ganhou? Afffff…



  3. Gabriel Caires

    Ao mesmo tempo que alguns tem um péssimo atendimento, alguns são verdadeiros mágicos.
    Um belo dia peguei um taxi e deixei cair um iPod Touch. Semanas depois recebo um email perguntando:
    Oi, vc perdeu um iPod Touch?

    Sim era o taxista querendo me devolver!!
    Peguei mais uma vez o taxi dele para pegar o iPod… agradeci… Então que em outro belo dia, peguei o mesmo taxista, ao acaso, comentei que queria alugar uma casa… ele deixou na porta de um apartamento que eu nunca tinha notado… poucos dias depois estava alugado :)



  4. Helena

    Lud, muito bizarro mesmo… fui lendo e me imaginando no seu lugar. Afinal, ja que aqui é um lixo e ele volta pro paraíso quando ele quiser, o q falta pra ele? Malas novas? Parece papo de fumante “paro quando eu quiser”. Acho mesmo que é bom ter essas experiências ruins, assim a gente valoriza as boas. Pensa, depois de um ano, vc ainda lembra do taxista que foi agradável, na época, vai que vc só achou o cara bacana, feliz com a vida. Hoje você lembra dele como uma pessoa que realmente vale a pena ter por perto.



  5. Messias

    Mania que as pessoas tem de valorizar o que vem, os países podem ser demais, bonitos, com uma cultura ímpar. Mas em lugar algum eu vi prestadores de serviço tão simpáticos como no Brasil.

    Quase me jogaram sorvete na cara porque demorei pra escolher um segundo sabor em Madrid (isso pq não havia plaquinhas com os sabores, queriam o que, que eu escolhesse pelas cores?), e fui expulso do MC’Donalds em Milão e Paris (pq estava perto da hora de fechar), coisas que não aconteceriam nunca aqui no Brasil.



  6. Ryu

    O universo quer ensinar-lhe que as pessoas são bem diferentes uma da outra e caso viesse a perder alguém que você tanto ama por um ato de violência, não teria a mesma postura.
    Quando as pessoas tem outras experiências culturais, e percebe outros valores em relação ao ser humano no que diz respeito a vida e ao próximo, elas passam a acreditar em viver bem com a segurança, com a igualdade social, com bem estar da família. Talvez para ele a profissão de taxista sobre sua trajetória de vida aponta para o fato de que a escolha pela profissão não foi planejada, não era um projeto de vida, deu-se devido à lucratividade e à influência de terceiros, que já eram taxistas, e a sobrevivência econômica foi o principal estímulo. Cabe ressaltar que as profissões de classes inferiores são discriminadas e não são reconhecidas como outra profissão qualquer, esse é o reflexo do serviço prestado ao público aqui no Brasil, infelizmente de péssima qualidade e total descaso com o consumidor. As pessoas já estão acostumadas e aceitam isso com a maior naturalidade!
    Nas dificuldades as pessoas mudam. As pessoas dão o que podem dar. Nós é que temos expectativas diferentes em relação a elas e queremos sempre mais.



    • Ryu, não entendi o que quis dizer com “e caso viesse a perder alguém que você tanto ama por um ato de violência, não teria a mesma postura”. A mulher do cara morreu de infarto, e não assassinada, se é que foi isso que vc quis dizer. O fato de termos nossos traumas e frustrações (pessoais ou profissionais) NÃO é uma chancela para que a gente possa agir ESCROTAMENTE com desconhecidos, que nada tem a ver com isso.



  7. Lud, você é a Angélica do século XXI. Precisa urgentemente gravar uma nova versão do “Vou de Táxi” com um mashup de todas essas experiências em quatro rodas! =D



    • Bud, temos várias referências audiovisuais… Angélica vou de Táxi, Táxi do Gugu… e na real eu achei MESMO que era pegadinha!



  8. Ingrid Rangel

    Lud,
    Acho que captei o espírito do seu texto. Mas se fosse aqui no RJ e se fosse comigo eu teria entrado em contato com a secretaria municipal de transportes urbanos e denunciaria o cara.
    Apesar de todo o (seu) aprendizado ter surgido dessa situação surreal, ou seja, em última análise você teve uma ótima oportunidade de reflexão sobre os amargor e mau-humor humano, eu vejo uma afronta grotesca à legalidade. Bem-humorado ou não, ele é prestador de serviços e não pode recusar esta ou aquela viagem. E mais, quem tem que ter o troco é ele, não você!
    No mais, como sempre, um ótimo texto! :oP Você é siniXtra!



  9. Esse taxista me lembrou um desenho da MTV que tinha um garoto que odiava tudo era o garoto enxaqueca… Lud vc conheceu o taxista enxaqueca.

    As coisas na vida são simples e temos sempre duas escolhas nas adversidades : ou aceitar ou sofrer.
    O taxista fez a opção dele… é uma pena.
    Mas, a respeito da prestação de serviço do rapaz não tem haver com o desrespeito dele ao cliente tem mais haver com o fato de que ninguém pode oferecer oque não tem, por isso a viagem com o Jailson é tão melhor, ele tem algo para oferecer.



  10. Nikolai Gavrilovitch Tchernichevski

    Não o culpe. Aprenda a pensar além de suas súbitas conclusões sobre pessoas.
    Nem só o ferreiro pode saber sobre o peso de sua marreta.



    • Ninguém está culpando ninguém. Estou dividindo minhas experiências. ;)



  11. Paulo

    Prezada Ludmila!

    Me emocionei com o teu texto. Sabes contar uma história. As tuas definições sobre a vida (em qualquer país!) são precisas. Acho que, apesar de não ser tua intenção, acabasses fazendo poesia, também!

    Saudações,

    Paulo.



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