A nostalgia, a geração digital e os tempos modernos

Me dá uma certa saudade do tempo em que, pra passar uma música a um amigo, tinha-se que ter essa canção gravada no computador e para enviar um mp3 demorava quase uma hora. Era comum ouvir: “Vou deixar baixando e amanhã eu ouço…”. Hoje conseguimos postar o videoclipe de uma música no mural do Facebook e todos os nossos amigos assistem na hora.

Dá saudade do barulhinho do modem e da alegria que era quando o troço conectava. Dava alegria também esperar o final de semana pra pagar somente um pulso e ficar conectado por quanto tempo quisesse. Nossos momentos de nostalgia são diferentes dos de nossos pais e avós, que se ressentem por nós não termos tido a oportunidade de brincar mais em ruas de terra, com pião, bolas de gude e bola de capotão.

Passado algum tempo após uma mudança, tudo passa a ser natural. Passamos cada vez mais horas do dia conectados e nos sentimos cada vez mais dependentes disso. A informação é solúvel como leite em pó. São milhares de links, feeds, twitts, likes, sms, caixas de email cada vez mais lotadas e por aí vai. Por isso, quando éramos crianças tínhamos a sensação de que os dias eram mais longos. De fato eram.

A geração digital

Tenho uma criança de quase 2 anos na família que sabe interagir com um iPad, possui milhares de brinquedos que falam, acendem e que se pudessem até brincariam sozinhos. Passo frequentemente por uma fonte, de frente à praia onde moro, e vejo algumas crianças com motinhas motorizadas, que brincam com suas faces catatônicas entre crianças com bicicletas de rodinhas. Quando vejo isso, penso que o mundo é triste. Qual história uma criança que nunca se ralou por cair de uma bicicleta vai contar? Isso certamente se refletirá na fase adulta. Quantos pores do sol deixaremos de assistir porque estávamos presos a iPads, twitters, facebooks e afins?

Vejo muitas pessoas que deixam de desfrutar a plenitude de certos momentos porque estavam mais interessados em ficar com a cara na tela de um dispositivo para compartilhar com o mundo onde estavam. Estamos criando uma geração de adultos com egocentria de experiências, pais de crianças obesas, com síndromes, TOCs e inúmeros anseios. Estamos criando a geração dos enlatados, do confinamento, dos amigos que não se visitam mais. Senti uma certa esperança quando lançaram o Kinect: no futuro, as crianças ainda suarão suas camisas e se movimentarão em suas brincadeiras.

Se em meu tempo eu já sentia certa revolta por estudar química, pensando que aquilo jamais seria útil pra mim, fico pensando o que pensa uma criança que precisa estudar esse monte de coisas em tempos de Google. Posso lhes dizer a qualquer momento que, em 100 gramas de ácido ascórbico, temos 40,92% de carbono, 4,58% de hidrogênio e 54,5% de oxigênio. Sim, porque em dez segundos eu achei tudo isso na internet.

Nosso sistema de educação não está preparado para lidar com essa geração. As competências das grades curriculares não formam mentes pensantes, mas robôs que realizam um monte de tarefas pensando em se livrar logo delas.

Gastamos hoje fortunas para estar com o dispositivo mais avançado do momento. Pertencemos a um mundo que gasta alguns salários mínimos em máquinas que logo estarão obsoletas – talvez antes mesmo de terminar de pagá-las.

Cobramos moralidade no cenário político, mas esquecemos que elegemos para nos representar pessoas como nós, frutos de nossa sociedade majoritariamente corrompida. Gostamos de furar filas, de avançar o sinal vermelho, de espremer veículos que querem entrar na nossa frente. Precisamos de campanhas para pensarmos em dar a preferência aos pedestres, precisamos de campanhas antiarmas. Vivemos em um mundo onde nossos heróis já morreram e não nascem mais referências sociais, talvez porque não há a mesma paciência em ouvir, ou haja uma pluralidade de pensamentos flutuando numa nuvem de informações.

O futuro

Não sei onde chegaremos, nem sou avesso ao desenvolvimento tecnológico. Mas tenho certeza que não somos mais felizes por conta dele. Cresci em um mundo onde existiam classes A, B e C – hoje, já ouço dizerem sobre classes D e E. Se os extremos se distanciam é porque a desigualdade é fruto dos nosso avanços. A violência só cresce por conta disso. Educação e oportunidade não crescem no mesmo passo de nossos avanços. Estamos nos tornando uma sociedade egoísta e negligente.

Sinto que serei em algum tempo fruto de espanto entre os mais jovens, que acharão muito engraçado pensar que em meu tempo as pessoas usavam telas de toque em seus dispositivos, ou que notebooks, tablets e smartphones eram palavras da moda. Logo, nossas tecnologias serão rebaixadas ao que foi o telefone da vovó. Quando ela pedia pra você discar para o açougue, era porque nem dígitos existiam, você precisava literalmente girar o disco. No futuro, penso que nem usaremos mais os dedos, tudo será cognitivo.

Como podemos mudar a realidade que nos move a esse mundo frio em que viveremos?

3 Comentários

  1. Penso nisso direto, comentei isso outro dia em uma reunião: nós nos achamos fodões com o iPhone na mão, esquecendo que um iPhone estará para um 486 sob a ótica dos nossos filhos e netos. Ao mesmo tempo acho que vivemos em uma das épocas mais incríveis: tivemos contato com nossos bisavós que conheceram a TV no final da vida. Tivemos contato com os nossos avós, que se divertiram ouvindo rádio e suaram para comprar uma TV. Temos nossos pais que viveram na época musical mais amazing ever (e que dificilmente será repetida), que eram adolescentes quando a TV chegou à sala de casa. Quando pondero sobre isso, acho que assim como nossos pais tiveram o privilégio de viver na era Beatles, Carpenters e etc, temos o provilégio de ter visto a Internet chegar em casa no começo da nossa adolescência. Somos o elo de conexão com essas gerações, e inconscientemente acho que é por isso que queremos documentar qualquer coisa. Por mais que seja aterrorizante e que eu concorde com 90% do seu texto, é, ao mesmo tempo – fascinante.



  2. Falas muitas verdades, mas como a Ludmilla falou, somos a geração que estamos intermediando isso e sabemos como é viver sem essa tecnologia toda e assim temos a função de mostrar esse mundo antigo aos nossos filhos.

    Duro é ver hoje uma sociedade que ninguém respeita ninguém, e o transito é um ótimo lugar para ver isso de camarote, basta ficar em qualquer avenida ou cruzamento observando por poucos segundos que você pode ver como falta muito respeito pelo próximo. Sempre paro para pedestres passarem e é incrível ver a cara de surpresa de muitos por que parei par eles, já vi caras de real surpresa, isso é tão absurdo como admirarmos tanto ações de honestidade ou generosidade, que deveriam ser o comum e não gerar surpresa.

    Esta nas mãos de quem consegue enxergar, agir e fazer acontecer.



  3. Algo que me preocupa violentamente é saber o quanto deixamos que a tecnologia permeie nossa vida, e como você bem apontou, estamos acreditando que os devices podem nos substituir, pois tentam nos representar o tempo todo.

    A única saudade da nossa infância deveria estar apontada para nossa inocência perdida, esses dias sem fim, sem relógios, não para o suporte tecnológico daquilo que chamamos de felicidade.

    A tecnologia deveria ser um bem humanitário, mas é um produto de consumo, e como tal, vai sempre oferecer soluções a poucos, ao custo do sofrimentos de muitos. Ao invés de uma inteligência de raça, temos patentes de produtos produzidos com matéria prima dos lugares mais bizarros, explorando todo tipo de mão de obra em todo tipo de situação.
    A maioria não pode usufruir das nossas criações geniais, e os gadgets acabam parecendo um capricho que custa caro demais.

    Mas como você lembrou, as pessoas estão num estágio muito cru da convivência, ainda não sabemos nos comportar em grupo, portanto acabamos fazendo mal uns para os outros sem perceber.

    O importante é frisar para os pequenos que a magia está dentro de nós, os aparelhos são apenas resultado disso, e o mais importante, nada pode substituir uma relação humana. A voz pelo telefone ou o amor por texto não se comparam ao aperto de mãos.

    Cabe à próxima geração determinar qual será o uso da tecnologia: um conhecimento a serviço de uma espécie, que pode ser usado de forma colaborativa e humanitária, ou nosso centro de prazeres e conveniências digitais.

    Ótima reflexão Bruno!



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